ARTAUD - Vídeo-ensaio

ARTAUD!

Da escolha do estilo

O vídeo-ensaio ARTAUD!, realizado a partir da peça homônima de Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, mescla teatro e cinema numa inspiração artaudiana e expressionista. Apesar de que rótulos não cabem em Artaud, a sua obra é considerada, por muitos autores, como expressionista (além, é claro, do seu namoro com o movimento surrealista).

Artaud - Vídeo-ensaio

Este cinema (expressionista) – apesar de suas várias interpretações – se caracteriza por um estilo fortemente antirrealista: espaços distorcidos, iluminação contrastada, abuso de sombras, atmosfera de pesadelo, cenários deformados, interpretação exacerbada. Trata-se de um cinema onde as imagens falam mais do que as palavras.

Artaud - Cinema expressionista

Estes filmes exprimem uma visão alterada, inquieta, patológica e angustiada, criando uma atmosfera onírica, pois – o sonho para Artaud"deve ser posto ao mesmo nível que a vida e os acontecimentos reais".

Artaud - Atmosfera onírica

"A palavra 'crueldade' deve ser tomada em sentido amplo (...) Mas o 'Teatro da Crueldade' quer dizer teatro difícil e cruel principalmente para mim (...) não se trata dessa crueldade que podemos exercer uns sobre os outros, despedaçando-nos mutuamente (...); mas sim da crueldade muito mais terrível e necessária que as coisas podem exercer sobre nós. Não somos livres. O céu ainda pede cair sobre nossas cabeças. E o teatro é feito para nos lembrarmos disso".

Artaud - Teatro da Crueldade

Rubens me disse que quando estava elaborando a criação da peça, sentiu que o teto havia abaixado e que ele mal podia levantar sem esbarrar neste. Uma sensação de sufocamento tomou conta dele, tudo parecia comprimí-lo. Muitos filmes expressionistas apresentam corredores estreitos, ambientes disformes, espaços de opressão.

Artaud - Espaço de opressão

Esta sincronicidade entre a obra artaudiana, o cinema expressionista e as experiências vividas por Rubens me confirmaram que eu encontrara o caminho.

Artaud - O caminho encontrado

Do processo de realização

O registro da memória teatral representa um legado cultural que oferece às novas gerações o contato com a experiência cênica, habitualmente diluída pela efemeridade deste gênero artístico. Para tal, não basta copiar a peça: só se terá uma pálida impressão do original. É imprescindível buscar uma "engenharia vídeo-genética" capaz de transpor o teatro para o vídeo, sem que se perca a intensidade do primeiro nem o impacto visual do segundo.

Artaud - Processo de realização

Tentei realizar este projeto tendo em mente um desejo de próprio Artaud, que é o de buscar um "certo número de quadros, de imagens indestrutíveis, inegáveis, que falarão diretamente ao espírito".

Artaud - Imagens indestrutíveis

Meu senso de organização me conduz habitualmente ao planejamento detalhado daquilo que vou filmar. Entretanto, ao me defrontar com o vigor dilacerante do pensamento artaudiano, percebi que o caminho restrito da ordem não era adequado, que um vídeo desta natureza não seria capaz de captar o clima e as idéias de Artaud. Uma estética extremamente organizada e realista cristalizaria aquilo que se quer pulsante.

Artaud - Vigor dilacerante

É impossível reconstituir, é possível recriar, já que como afirma Artaud: "É só por um desvio de vida, por uma parada imposta ao espírito, que se pode fixar a vida na sua fisionomia dita real, mas a realidade não está aí". Assim, não pretendi apenas registrar um episódio teatral, ocorrido num espaço/tempo definido, mas recriar a relação cênica de maneira a ampliar seu poder de ação – sua ação interna sob o espectador, ação virulenta que segundo Artaud tem "a virtude de um veneno inofensivo, uma injeção subcutânea de morfina".

Artaud - Recriar a relação cênica

O desejo de Artaud é de que o espetáculo "a que assistimos seja único, que dê a impressão de ser tão imprevisto e tão incapaz de repetir-se como qualquer ato da vida, qualquer evento induzido pelas circunstâncias". Partindo desta premissa busquei confrontar/conciliar a sua proposta desarticuladora com a necessidade de produzir um resultado inteligível.

Artaud - Espetáculo único

Realizei uma primeira gravação ao vivo, direta, sem interrupção e sem grandes pretensões. Um primeiro olhar: um registro cru. Da análise deste material, fui anotando os pontos de passagem dramática, as marcações cênicas, as mudanças de luz; percebendo os ângulos de visão mais privilegiados; esboçando uma direção para o vídeo, imaginando movimentos de câmeras que só poderiam ser feitos à parte e descobrindo meios de conseguir mesmo ao vivo, na postura de um espectador, realizar tomadas plasticamente construídas dentro da proposta estilística do vídeo.

Artaud - Direção de vídeo

Não fixei a câmera num ponto definido/definitivo, pois para Artaud o teatro deve fugir de um posicionamento espacial fixo, seja dos atores em relação a eles mesmos, ou destes com o público. A câmera buscou como sugere Susan Sontag: "uma fluidez dos movimentos e da alma".

Artaud - Fluidez dos movimentos

Este vídeo poderia assumir muitos rostos, este que está sendo visto reflete um momento biográfico que dificilmente será reproduzido: um conjunto de imagens-golpes "dados em todos os sentidos do acaso, da possibilidade, da chance ou do destino".

Artaud - Imagens-golpes
ARTAUD! – UM VÍDEO-ENSAIO
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