Fernando Pessoa criou o termo heterônimos para dar conta de explicar a multiplicidade de seus eus-poéticos tão diferentes entre si, personagens de um teatro sem enredo. Os heterônimos, em Pessoa, são personagens completos. Têm biografia, visão de mundo e dicção próprias. São quase autores autônomos. Diferem radicalmente do seu criador.
Gilberto Gouma, na criação da banda fictícia que executa as suas canções, denominou-a de Giba e Os Euterônimos, numa clara referência aos seres pessoanos. Todavia, os euterônimos operam de outro modo. É uma heteronímia do EU-mesmo. Não são seres separados. São desdobramentos. Facetas do próprio poeta. Um sujeito repartido em muitas máscaras. Um condomínio interno, como sugere o título do álbum. Cada letra, cada voz, cada melodia expõe um estado de alma. Esses estados não se fixam. Eles se alteram e se alternam. Formam um rodízio emocional. E é dessa circulação que nasce a unidade da obra.
Aqui, os euterônimos ganham corpo na própria formação do grupo musical. São músicos heterogêneos, que urdem melodias e atravessam um largo espectro sonoro: MPB, Bossa-Nova, Jazz, Blues e Rock. As interpretações vão da doçura à aspereza, do intimismo à explosão.
Condomínio de Vozes
entre o Caos e a Redenção
Condomínio de Vozes apresenta um percurso artístico intenso, em que a subjetividade fragmentada e a tensão entre anseio e frustração se tornam matéria de criação. Nas canções-poemas, múltiplas identidades se alternam entre liberdade e aprisionamento.
O álbum narra o trajeto do eu-adolescente do compositor, revivido em letras confessionais e despudoradas, que nasceram de fragmentos de prosa poética de um diário juvenil. E foram reconstruídos como poemas-letras, com ritmo e métrica, fundindo literatura e música numa experiência estética unificada.
Para interpretar as suas canções, Gouma concebeu Giba e Os Euterônimos, banda virtual, composta por músicos hipotéticos de estilos diversos que dão corpo a essa pluralidade de vozes. A variedade de "intérpretes" amplia o sentido de multiplicidade, revelando diferentes dimensões de uma mesma alma.
Condomínio de Vozes alterna a clausura da alma e a ânsia de libertação: o corpo, a dor, a memória e a paixão entrelaçam-se num mesmo tecido anímico. A obra afirma a precariedade da vida e a necessidade de constante reinvenção. Sua progressão revela a personagem Giba, máscara consciente, em trânsito entre confissão e invenção, num permanente diálogo com o desejo, o desassossego e a liberdade. Gouma transforma suas antigas vozes em música e palavra, fazendo ecoar a pluralidade que o habita e inscrevendo, na arte, a sua busca de autenticidade.
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Singles
Urgência
Multidão de Mim
Caminho das Pedras
A Faísca e o Processo
Antes de existir álbum, existiu um incômodo. Não foi um plano. Foi um chamado. Quando passei a descobrir novos artistas, notei algo que me acendeu por dentro. Um público muito jovem lota os shows. Isso é sinal de renovação. De que a música segue gestando talentos.
A minha inquietação, como escritor, poeta e dramaturgo, pedia mais. Eu queria ouvir letras mais poéticas. Mais densas. Mais potentes. E decidi encarar o desafio de escrevê-las. Foi aí que Condomínio de Vozes começou a ganhar corpo. A maioria das letras nasceu de um caderno de poesia da minha adolescência. Poemas que ficaram guardados por anos. E que eu reformulei agora, à luz do meu ofício e do meu conhecimento literário de hoje. Mesmo assim, o eu-lírico permanece aquele jovem inquieto. Ele ainda me habita. Ele ainda insiste.
Como não toco instrumento e não canto, trouxe para esse caminho o que eu tinha: escuta, repertório, rigor e imaginação. Com o auxílio de IA, passei a criar músicas para os meus poemas. Mas isso não acontece por milagre. Exige precisão. Exige aprender a programar comandos que orientem a "máquina" a se aproximar do que eu ouço por dentro. Ainda não é uma ferramenta exata. Há tentativa e erro. Há experimentação e descoberta.
A cada letra, experimentei caminhos sonoros distintos. Eu precisava sentir. Testar o que sustentava a emoção do texto. O que traía. O que ampliava. Eu não me importo em transitar entre gêneros tão distintos. Tampouco entre estilos até opostos: do contido ao arrebatado. Nem em flertar com o que alguém possa chamar de brega, quando a emoção transborda e pede excesso. Isso também faz parte. Faz parte dos meus vários eus. Das minhas faces e fases. De uma alma inquieta. E com coragem de se arriscar.
Ao meu lado, Pedro Andrade me ajudou com sugestões de gêneros que podiam casar melhor com os poemas. E depois, com a análise, a triagem e a seleção. O processo vira curadoria. Eu acumulo versões. Escuto de novo. Corto. Volto. Comparo. Só então escolho. A canção eleita não nasce de um clique. Ela surge depois de uma longa empreitada.
Faixa a Faixa
Estas leituras oferecem um roteiro de escuta para Condomínio de Vozes. Não resumem, abrem chaves. Cada faixa é comentada quanto a imagens, métricas, desenho melódico e atmosfera. O álbum nasce de poemas retrabalhados em canções, fruto de um caderno redescoberto, e encontra na banda Giba e os Euterônimos um laboratório polifônico. O grupo percorre Bossa Nova, MPB, Jazz, Blues e Rock, sem perder o diapasão emocional que articula o conjunto. Timbres diversos interpretam um mesmo sujeito em perspectivas complementares, ora íntimas, ora expansivas. O percurso trabalha multiplicidades, desejo e falha, dúvida como método e sede de reinvenção. As análises observam como letras e arranjos deslocam o narrador do caos inaugural para uma abertura possível, sem dogmas. São pistas para entrar, permanecer, retornar.
Condomínio de Vozes
Faixa-chave que apresenta o princípio do álbum: identidade como casa multifacetada. A letra assume a recusa da "máscara imposta" e transforma a dúvida em espaço de liberdade. O refrão "me habito, me perco, me sou" é eixo rítmico e conceitual, alternando afirmação e extravio. Em Condomínio de Vozes, por exemplo, o poeta expõe a coexistência de múltiplas identidades que, simultaneamente, se anulam e se afirmam, revelando o caos interno de alguém que prefere "estar nos sonhos em vão" a aceitar uma lucidez opressora. O eu lírico escolhe o risco e explora o caos como abrigo fértil. Há movimento de reinvenção contínua, em que cada verso abre outra porta. A canção inaugura o arco dramático do álbum: pluralidade, conflito, desejo de recomeço.
Letra
Vou enfrentar o destino,
Sair da sombra de mim,
Sangrar no abismo dos dias,
Recusar o rosto que não é meu.
Busco o recomeço, enfim.
Me prendo em fiapos da razão.
A lucidez é um fardo pra mim,
Prefiro estar nos sonhos em vão.
Um condomínio de vozes:
me habito,
me perco,
me sou.
As imposições me sufocam,
mas o desejo não se calou.
Carrego o peso do disfarce.
Estrangeiro no próprio rosto.
O caos como abrigo,
Na dúvida, a liberdade.
Minha loucura: rota de fuga,
Pretexto pra minha ousadia.
Desafio a lei que subjuga,
Recrio o que nem existia!
Um condomínio de vozes:
me habito,
me perco,
me sou!
As imposições me sufocam,
mas o desejo não se calou.
Renunciar à máscara imposta,
negar-me à coerência alheia,
inventar-me a cada aposta,
ser todos e nenhum ao mesmo tempo.
Sou todos e um.
Sou uma alma composta.
Sou todos em um.
Sou anseio sem resposta!
Sem resposta.
Sem resposta!
Multidão de Mim
A serenidade aparente esconde um redemoinho. A letra revela estados que se sucedem e colidem, como se cada voz interna reivindicasse autoridade. O mar manso que vira maremoto concentra a imagem do conflito, sintetizando a tensão que organiza a faixa. Repetições e exclamações marcam pressão, risco e confinamento. O sujeito se diz tempestade, admite erupção, reconhece prisões íntimas. O resultado é um autorretrato inquieto, onde convivem promessa de liberdade e ameaça de naufrágio, preparando o ouvinte para os embates seguintes.
Letra
Esta mansidão, que possuo,
Acredite, é só ilusão.
Quem me vê tão calmo assim...
Desconhece a multidão,
De vozes que habita em mim.
Esta mansidão, que possuo,
Acredite, é só ilusão.
Quem me vê tão calmo assim...
Desconhece a multidão,
De vozes que habita em mim.
Quem se inquieta com a minha paz,
Não repara o turbilhão,
De seres com quem divido,
Este corpo, esse coração.
Abismo sem fundo, nem volta,
Que dentro de mim se agita.
Um caos, silenciosa revolta.
Que na minha mente, grita!
O ser tem inumeráveis estados,
Cada vez mais perigosos!
Na calmaria, um maremoto,
Sem controle, sentimentos furiosos.
Cada estado, um risco,
Cada voz, uma prisão.
Sou uma tempestade,
Alma em plena erupção.
Cada estado, um risco,
Cada voz, uma prisão.
Sou uma tempestade,
Alma em plena erupção!!!
Alma Enigma
Aqui a busca ganha contorno filosófico. As perguntas não pedem solução, pedem caminho. Fala-se de sede do ilimitado, de um querer sem nome que cresce a cada passo. A letra contrapõe falta e excesso, recusa domesticação do desejo, reafirma a alma como enigma e tarefa. A reorganização de estrofes reforça o vaivém entre anseio e dor, como se a própria forma imitasse o movimento interior. O efeito é de meditação dinâmica, que transforma o esforço de compreender em gesto criativo, mantendo aberto o espaço para a próxima pergunta.
Letra
Por que desejo
O que não preciso?
Por que minha alma,
Com cega ganância
Busca o inatingível?
Por que a alma
tem sede de infinito?
Como entender a causa,
Quando se esconde
Em abismo e labirinto.
A alma não se limita.
A alma não se deixa domar.
A alma é enigma:
Eterna busca!
Mas isso pouco importa.
O que importa é o anseio e a dor,
De tentar compreender
Porque desejar sem alcançar.
Como desvendar o que há
entre a falta e o excesso,
Se cada passo aumenta
um querer sem nome,
e sem fim.
A alma não se limita.
A alma não se deixa domar.
A alma é enigma:
Eterna busca!
Mas isso pouco importa.
O que importa é o anseio e a dor,
De tentar compreender
Porque desejar sem alcançar.
Preguiça de Alma
O álbum desacelera, encara a inércia afetiva. A letra descreve cansaço, silêncio, lembranças apagadas. Tudo pesa. As repetições constroem um campo sonoro de letargia onde o tempo parece mais denso. Não há dramatização excessiva, há constatação. As repetições constroem uma paisagem de letargia onde o tempo fica denso. Surge uma esperança dispersa, insuficiente para impulsos duradouros. A letra registra o desgaste e a dispersão. Depois desse quadro, qualquer gesto de retomada adiante ganha relevo, porque supera o atrito íntimo do desânimo e recoloca a vontade em movimento.
Letra
Preguiça de alma,
Desconforto a invadir,
Coração sem calma,
Sem vontade de sentir.
Vozes caladas,
No silêncio a se perder.
Lembranças apagadas,
Num vazio a padecer.
Olhos cansados,
Sem brilho pra refletir,
Sonhos desfeitos,
Sem forças pra insistir.
Vozes caladas,
No silêncio a se perder.
Lembranças apagadas,
Num vazio a padecer.
No peito, um peso,
Em busca de resistir,
Esperança dispersa,
Que o tempo vai diluir.
Vozes cansadas,
Lembranças caladas.
Sonhos perdidos,
De nós esquecidos.
Vozes desfeitas,
Lembranças cansadas,
Sonhos vazios,
De nós tão perdidos!
Esperança apagada.
Esperança apagada.
Analfabeto Afetivo
Autorretrato fragmentado. O sujeito admite colagens, máscaras, apagamentos, e pergunta ao espelho qual lado o abriga. O sujeito declara não dominar a sintaxe do sentir. Reconhece ser a colagem de vidas alheias e a perda de feições autênticas. A canção articula confissão e dúvida, conduz o ouvinte por corredores de identidade onde tudo se afirma e se contesta. A ênfase em repetições e interrogações, agora mais intensa, reforça o labirinto identitário e a recusa de sínteses confortáveis. A sombra no reflexo diz mais que qualquer definição. O poeta propõe ouvir o não dito, decifrar o gesto ausente, aceitar contradição como matéria de trabalho. O resultado é um pacto com a complexidade, sem nostalgia de inteireza, atento aos sinais que ainda escapam.
Letra
Sou analfabeto no sentir,
sem concordância no pensar,
sem regência no agir,
sem gramática no amar.
Nada do que sinto
me liga ao que é humano.
Sou poema em pedaços:
Nunca me fiz inteiro.
Sou retalhos de tantas almas,
Não sou um retrato exato.
Brinquei com máscaras
e perdi as expressões reais.
Sou uma suposição,
Sou uma hipótese,
Absurda contradição!
Qual lado do espelho me abriga?
Não temo a morte.
Não lembro o que teria sido a vida.
Não sou quem surge no reflexo,
Sou apenas um vulto na sombra.
Sou uma suposição,
Sou uma hipótese,
Absurda contradição!
Qual lado do espelho me abriga?
Não temo a morte.
Não lembro o que teria sido a vida.
Não sou quem surge no reflexo,
Sou apenas um vulto na sombra.
Sou uma suposição,
Sou uma hipótese,
Absurda contradição!
Qual lado do espelho me abriga?
Só consegue me ver,
quem escuta o que não digo,
quem decifra o gesto que não faço.
Rompi certezas, apaguei digitais.
Qual lado do espelho me abriga?
Qual lado do espelho me obriga?!
Qual lado do espelho sou eu?
Qual lado sou eu?
Eu sou?
Eu sou!!!
Reconstrução
Depois da queda vem a oficina. Ruínas, delírio, memórias, tudo vira material de obra (em amplo sentido). O poema transforma delírio em ensaio de futuro. Recolhe fragmentos e lhes dá outra ordem. O refrão repete "Outra vida, novo início", convertendo mantra em decisão. Não há milagre repentino, há persistência. A letra avança de sombra a prumo, do canto esquecido à retomada do passo. No desenho do álbum, a faixa marca o ponto em que a dor ganha função construtiva, e o desejo deixa de ser rascunho para virar projeto.
Letra
Nas vielas da noite amarga,
Onde o silêncio esconde a dor,
Sinto a alma pesada e sem vida,
Num lamento mudo, perdido em clamor.
A espera consome a mente,
Em ruínas, meus erros desataram,
No véu da loucura insistente,
Reavivo a chama onde os medos calaram.
O desespero do meu ser, sem rumo,
Afundado em sombras, num canto esquecido.
Despertar é um grito de prumo,
Persisto, luto, mesmo sem abrigo.
Entre rupturas e memórias,
Visões me engolem, me levam ao delírio.
Na insanidade reinvento histórias,
E na audácia, outra vida, novo início.
Outra vida, novo início!
Outra vida!
Novo início!
Outra vida, novo início!
Alma Sem Portas
Manifesto de abertura afetiva. O eu pede pouco e pede muito, pede a carícia de um olhar, expõe desejo e rejeição. O refrão enuncia transparência radical, coração sem muros, alma sem portas. Há súplica e firmeza, franqueza e governo de si. O texto encara o risco de dizer o que geralmente se cala. E essa coragem não equivale à entrega cega. Vulnerabilidade que não se confunde com submissão. A faixa reafirma admitir fissuras para que a ligação possível se faça sem truques nem imposturas.
Letra
Venha de onde vier,
que venha um amor urgente.
Cansei de jogar sozinho,
Conheço cada lance e blefo.
Pela janela fechada,
Vejo uma estranha paisagem.
Nem temo me desligar:
Perdi o senso e a medida.
O meu coração sem muros,
não esconde o menor segredo.
A minha alma sem portas,
não tranca nenhum sentimento.
Exponho sem pudor:
Os olhares de desejo,
e as dores da recusa.
Não disfarço a evidente atração,
nem contenho a lacrimosa rejeição.
O meu coração sem muros,
não esconde o menor segredo.
A minha alma sem portas,
não tranca nenhum sentimento.
Senhor dos meus apelos,
tende piedade de todos estes nós,
que trago na garganta.
Peço pouco, quase nada.
Um mero afago,
não mais que isso,
a sincera carícia de um olhar.
O meu coração sem muros,
não esconde o menor segredo.
A minha alma sem portas,
não tranca nenhum sentimento.
Casca-Corpo
A casca não comporta o que lateja por dentro. A repetição do olhar que não reconhece a si mesmo intensifica o estranhamento. O poema confronta o tempo, revisita o espelho e escolhe uma fé possível, crer em si. O passado vira arquivo, não jaula. O retorno ao quintal de ontem não é regressão, é ajuste de rumo. A imagem da bola de gude como troféu é a lembrança de um tempo em que a conquista parecia ao alcance. Ao final, a canção declara escolha e presença ativa no agora. A narrativa do álbum ganha impulso, com decisão clara e horizonte nítido.
Letra
Eu sei que vou arrebentar.
A casca corpo já não suporta a alma
tão cheia de sonhos inacabados:
A derrota dos desejos.
O vazio me responde em silêncio:
O tempo não espera ninguém.
O tempo,
Não espera,
Ninguém!
Eu cheguei ao impasse:
Prosseguir ou deixar.
Consentir na dúvida
de que existe um milagre.
Estou à espera de uma fé possível.
A realidade só existe na crença.
Não existe fé maior do que crer em si!
Diante do espelho,
no olhar do outro,
não me reconheço mais.
Diante do espelho,
no olhar do outro,
não me reconheço mais.
Configuro novas emoções
Para sobreviver no nada.
Recolho os fósseis
de uma vontade antiga:
Só vestígios...
O vazio me responde em segredo:
O tempo não espera ninguém.
O tempo,
Não espera
Ninguém!
Na poeira das lembranças,
Achei uma bola de gude:
Troféu de uma infância de vitórias.
Retiro a gravata e volto,
ao quintal de ontem,
Para cumprir as promessas do futuro.
Não sou o que ficou pra trás,
Mas o que escolho ser agora.
Não sou o que ficou pra trás,
Mas o que escolho ser aqui
E agora!
Reticências
O poema celebra a dúvida como regime de vida. A canção enumera suspensões e ausências, desmonta certezas, suspeita de verdades plenas. Nada se fecha. E isso não é derrota, é método. O arranjo verbal redobra a ideia de incompletude, e o brado por indagar afirma liberdade mental. Não se trata de apologia do vazio, e sim de uma ética de perguntas que substitui o conforto do dogma por atenção viva e mente desperta. No desenho do álbum, a canção oferece base para a travessia emocional apresentada nas outras faixas. É um chamado ao pensamento em modo interrogativo.
Letra
A vida é feita de reticências.
Tudo está em suspenso.
Estamos em permanente limbo,
Sombras e pendências.
Sem esperas, sem crenças,
Sem emoções, sem futuro,
Sem exclamações,
Soltos no escuro.
O vazio não é o nada,
A ausência ocupa espaço.
E dói, dor concreta,
Imenso cansaço.
Sem interrogações,
Sem nos espantar.
Sem saudade do que nunca
Iremos concretizar.
Não há certezas absolutas,
Tudo é dubiedade.
Não há verdades plenas,
Medo nos invade.
O vazio não é o nada,
A ausência ocupa espaço.
E dói, dor concreta,
Imenso cansaço.
Ainda assim, prefiro a dúvida,
O dogma traz fanatismo,
Liberdade em clausura.
Indagar é minha aventura!
Prefiro duvidar!
Duvidar!
Incerteza: a única verdade!
Prazer em arriscar!
Aventura da liberdade!
Inferno Astral
Cartas boas, sorte aparente, jaula real. A letra mostra o desconforto de quem recebe elogios e se sente trancado por regras alheias. O contraste entre promessa e prisão organiza a cena. O eu rejeita o script aprovado e prefere um desatino verdadeiro a um destino arrumado por fora. Há ironia, há acidez, e sobretudo há recusa de moldes. A canção ajusta o foco sobre pressões sociais e afetivas que vendem felicidade como fórmula. No arco do álbum, explicita o custo da autenticidade e prepara a afirmação que virá.
Letra
Não me consola saber-me assim,
Uma felicidade em potencial,
Que não se consolida, desejo sem fim,
No meu silêncio, um grito visceral.
O meu lamento em alvoroço
E um falso sorriso no rosto.
Há quem diga que eu sou ingrato,
Mas sinto o destino imposto
Dizem que na cartada,
Levei ases e coringas,
Mas me sinto na jaula trancada,
Liberdade lá fora, sem vindas.
Preso em ideias que não me pertencem,
Acordado em um pesadelo cruel,
Acorrentado a regras que me prendem,
Lambuzado com leite e mel.
Preferia vinho e pimenta,
Eu nasci com o jeito de príncipe,
Mas a alma mendicante lamenta,
E só me atraem plebeus ardentes.
Neste inferno astral, prisão sem final,
Entre um falso e promissor destino,
Prefiro um verdadeiro desatino.
Urgência
A voz decide viver agora. Sem concessões. A letra defende risco, atitude, intensidade, e reitera isso com exclamações que funcionam como golpes de martelo. Não é bravata, é disciplina de quem não se acomoda. O texto trabalha imagens de limite e sobrevivência. Há erotismo franco, há energia de confronto, há um pacto com a liberdade que prefere ação à hesitação. Mas o ímpeto é governado por clareza de finalidade, não por acaso. No conjunto, a faixa confirma a curva ascendente da afirmação de si, com foco e fôlego.
Letra
Tenho urgência em viver
que sei da curteza da vida.
Não me calo pros impulsos primeiros.
Arrisco e corro,
deixo os medos no acostamento.
Calibro emoções
e mapeio a trilha mais perigosa.
Não quero amores fáceis
nem simpatias de balcão.
Puxo brigas sem medo
e me dou inteiro às porradas.
Não me curvo não.
Quem me desafia
não tem instinto de preservação.
Atravessei o limite da corda bamba
e caí em todas as tentações.
Sobrevivi! Tomem cuidado.
Animais feridos são de se temer.
A coragem se avoluma.
Perdi asas e ganhei garras.
Lanço meu corpo sobre outros corpos:
carícias e ataques.
Prazer sem fronteiras.
Ética do devaneio.
Vigília da carne.
Tenho urgência em viver!
Não me curvo não!
Sou de se temer!
Tomem cuidado!
Não conheço a rendição!
Timoneiro do Ímpar
Declaração de autonomia serena. O sujeito não se vende, não segue escola, aceita o preço da lucidez. A metáfora náutica organiza a ideia de condução de si, com recusa de tudo que suga e aprisiona. Há orgulho sereno, coerência como princípio, fuga como estratégia de preservação. A variação tipográfica que isola "um ímpar caminho se traça" faz do verso uma bandeira de singularidade. É coerência como princípio e orgulho sem pose. Na arquitetura do álbum, funciona como bússola ética, síntese do aprendizado colhido.
Letra
Ser feliz é vocação,
Sou mártir da diferença.
Escravo da máscara,
Escolho a deserção.
Não almejo glórias:
nem na terra, nem no céu.
Não aprendi o cinismo,
Sou herói sem troféu.
Na vida, sou o timoneiro,
Me afasto do que me suga.
Rejeito ser um prisioneiro,
Traço rotas, preparo a fuga.
Coerência que não pede esmola.
Orgulho em não me vender.
Não sigo nenhuma escola.
Não permito me prender.
A lucidez tem um preço,
Pago com prazer.
Não devo favores.
Não cedo valores.
Nego a fé.
Renego a farsa!
Um ímpar
caminho se traça!
Nego a fé.
Renego a farsa!
Um caminho
Ímpar se traça!
Na vida, sou o timoneiro,
Me afasto do que me suga.
Rejeito ser um prisioneiro,
Traço rotas, preparo a fuga.
Anatomia da Dor
A dor é mapa e motor. A imagem das águas fortes substitui a quietude estéril, indicando fluxo que restaura sentido. O eu se declara exceção, escolhe diferença, recusa se encaixar molde ou em ser exemplo. Não há culto ao sofrimento, há estudo de sua força e utilidade. Solidão e estranheza são reconhecidas, mas transformadas em ferramenta de leitura do mundo. O caos aparece como recurso, nunca como destino. A canção consolida a atitude de enfrentamento que percorre o álbum, defendendo movimento e trabalho interior constante.
Letra
Sofrer traz certo alívio,
Melhor que a calma vazia,
Na dor, encontro um motivo,
No peito, a chama se cria.
Prefiro as cachoeiras bravas,
Onde o sangue corre denso,
Longe das mágoas paradas,
O rio segue intenso.
Corre nas veias, a corrente,
Vivo no impulso das águas,
Sou exceção, sempre diferente,
Não sou exemplo, mas mácula.
Felicidade é para outros,
Recebi a estranha sina,
Disfarcei tantos rostos,
Mas a alma não desatina.
Solidão me acompanha,
Estranheza me envolve,
Na dor me reconheço,
No abismo, tudo se dissolve.
Corre nas veias, a corrente,
Vivo no impulso das águas,
Sou exceção, sempre diferente,
Não sou exemplo, mas mácula.
O caos é meu alento,
E a diferença, meu lar,
No turbilhão, me sustento,
E nunca paro de lutar.
Caminho das Pedras
Ensinaram pouco sobre tropeços. A faixa responde com rebeldia lúcida. Tesoura no lugar do lápis, para recortar ilusões e encarar o real. A aprendizagem rígida cede a uma formação crítica, em que a verdade toca, mesmo quando fere. O azul distante vira meta concreta, não miragem. Ao final, a vista se abre e a liberdade se declara, com critério próprio e passo decidido. A canção vira ponte entre denúncia e projeto, limpa o terreno para novos percursos, sustentados por escolhas conscientes e por um desenho que se afirma sem tutela.
Letra
Na escola, ninguém me avisou,
Das tantas pedras no meu caminho.
E que o caminho das pedras tombou
Ravina abaixo. Eu tão sozinho.
Aqui, no fundo, avisto o distante,
Um azul que mal posso alcançar.
Os sonhos são apenas nuvens,
Que se desmancham num só olhar.
O corpo cresceu pouco pra esta alma,
Que explode em desejos de paraíso.
Quero romper com as lições, sem juízo!
Quero nova cartilha: transgressora!
Transgressora!
Transgressora!
Não quero lápis, quero tesoura,
Muitas mentiras vou recortar.
Rasgar as ilusões, sem demora.
Ver a verdade, deixá-la me tocar.
Agora me levanto, a vista é clara,
As pedras não me impedem de andar.
Minha alma livre se declara,
Invento estradas no ar.
Diário de Bordo
Crônica de navegação como fecho. O eu enumera excessos, reconhece desvios, mantém a vontade de rumo. Manchetes, fotos, confissões, tudo sem maquiagem. Nada é adoçado. A metáfora do mar integra todo o inventário, da deriva à procura de porto. "Levantei as velas, larguei fora e a âncora e o leme" reforça a imagem de comando e abandono de amarras. O mar revolto segue, o enjoo também, mas a busca por prumo não cessa. O refrão pede vida acesa e responde com fôlego narrativo. Nada se encerra, tudo continua. O álbum termina como começou, em travessia, agora com instrumentos afinados pela experiência. A história segue, com mapa em reescrita.
Letra
Vontade de vomitar, dedo na garganta,
Tento arrancar o que me atravanca.
Engoli sapos demais, congestão.
Entalado, mal respiro, pura frustração.
O não dito, a emoção adiada,
O toque recusado, alma calada.
O corpo paga o preço da covardia,
Preciso de liberdade e ousadia!
Explodir! Gritar! Revidar!
Quero sentir a vida pulsar.
Aventuras eu me permiti,
Mesmo as que eu não quis, só pra provocar.
Até a mim, sou meu maior oponente.
Ultrapassei as medidas, ímpeto ardente.
Exagerei na dose, me expus demais.
Toda minha vida, um infame jornal.
Manchetes apelativas gritam meus ais.
Fotos atrevidas revelam, afinal!
Uma biografia sem retoques, nem invenção.
Levantei as velas, larguei fora
a âncora e o leme.
Me pus à deriva, o mar está revolto,
Meu enjôo só piora, procuro o porto.
Espero encontrar quem entenda de navegação,
Alguém que me guie com prumo.
Meu coração no meio da tempestade,
Busca um sentido, precisa de rumo.
Explodir!
Gritar!
Revidar!
Quero sentir a vida pulsar!
Minha vida em alto-mar,
Um diário de bordo a registrar,
Cada emoção,
cada tentativa,
De encontrar na tempestade,
a saída definitiva.
A saída definitiva.
A saída!
Definitiva!!