fundo-inferno DRAMATURGIA DO DESASSOSSEGO

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Apresentação

FUNDO-INFERNO nasce de uma frase de Fernando Pessoa que ecoou como chamado: "Álvaro de Campos é a personagem de uma peça. O que falta é a peça". Aceitei esse desafio e iniciei um percurso de criação que uniu pesquisa, escrita e cena, desenvolvido no meu doutorado na Universidade do Algarve, com orientação de Armando Nascimento Rosa e diálogo com Teresa Rita Lopes. O espetáculo parte da poesia de Campos e revela sua força teatral, transformando versos em ação, conflito e presença. A partir de fragmentos poéticos, construí uma dramaturgia própria, com personagens, relações e ritmo cênico, apoiada por imagens e recursos sonoros que ampliam sua potência expressiva. Álvaro de Campos surge não apenas como heterônimo, mas como figura dramática plena, autor e intérprete de si mesmo. O que era poesia latente ganha forma no palco. O drama-em-almas torna-se poema-em-cena. A peça que faltava, enfim, existe.

O Desassossego de Existir no Plural

Fernando Pessoa encontrou na multiplicação de vozes um modo de sustentar a própria existência. Para ele, o eu não é único. É um palco povoado por consciências diversas. Cada heterônimo nasce da urgência de viver mais de uma vida, de pensar por caminhos distintos, de sentir sem limites fixos. Criar não era teoria, era necessidade vital. Ao desdobrar-se, o poeta transforma o fingimento em verdade e a escrita em cena interior. Dessa pluralidade surge um teatro feito de almas, não de ações, onde o autor é também intérprete de si mesmo. Álvaro de Campos encarna esse excesso. Nele, a fragmentação vira força, a dor vira verso, e o conflito se afirma como forma de existir. Pessoa permanece como o ponto onde todas essas vozes se encontram, dizendo em conjunto o que um só jamais poderia dizer.

Proposta Dramatúrgica

A proposta dramatúrgica de FUNDO-INFERNO parte da vida imaginada de Álvaro de Campos e transforma sua poesia em ação teatral. As personagens nascem do universo afetivo e intelectual do próprio Campos e de autores que dialogam com sua visão de mundo, formando um conjunto de vozes que constroem a cena. A partir desse material, foi criada uma trama inédita, com falas e conflitos pensados para dar forma à peça que nunca existiu. Campos surge como herói trágico contemporâneo, voltado não para a busca de um amor ideal, mas para o confronto com a própria identidade e com seu criador. O drama é movido por contraste, tensão e excesso emocional. Embora haja apenas um ator em cena, a peça não é um monólogo, pois o protagonista dialoga com figuras da memória e da imaginação, que surgem por meio de projeções, criando um jogo constante entre presença física e aparições virtuais.

Sinopse

Em FUNDO-INFERNO, Álvaro de Campos – à beira do abismo, exaurido e lúcido – abre o baú de sua própria memória e revisita o passado. A partir das lembranças, reconstrói em si os personagens que o marcaram. Entre cartas amareladas, fotografias desbotadas e objetos impregnados de ausências, convoca fantasmas e amores, mestres e desafetos, que surgem como visões, misturando realidade, sonho e delírio. No quarto que é palco e clausura, percorre ruas de Lisboa, estações de trem, campos de guerra e paisagens bucólicas projetadas em sua mente. Revive afetos que não se consumaram e paixões que o dilaceraram. Confronta Fernando Pessoa, seu criador e espelho, questiona sua própria identidade e mergulha no fundo-inferno de si mesmo. Busca a realização absoluta e fracassa, oscilando entre a morte e a embriaguez. Porém, escolhe a loucura e o sonho definitivo como única forma de escapar e sobreviver. Resta-lhe a vertigem de ser, ao mesmo tempo, homem, personagem e eco poético.

Relógio - Fundo Inferno

Dramaturgia Expandida

A dramaturgia expandida de FUNDO-INFERNO nasce da integração entre texto, imagens, sons, luz e atuação. Esses elementos trabalham juntos e constroem a essência do espetáculo, criando uma cena pulsante e intensa. A música e as projeções não explicam a história. Elas ampliam o que acontece em cena. A peça não segue uma narrativa tradicional, do início ao fim. Ela se constrói por momentos, sensações e conflitos que surgem, se sobrepõem e se transformam. O palco torna-se um espaço sensível, onde ver, ouvir, pensar e sentir acontecem ao mesmo tempo. O público é convidado não apenas a compreender, mas a vivenciar. O palco torna-se um espaço de experiência, onde arte e vida se aproximam, e a cena acontece como algo que se vive, não apenas como algo que se observa.

Encenação Multimídia

FUNDO-INFERNO é uma criação que nasce híbrida, concebida na integração entre linguagens, fruto de uma investigação prática sobre como preservar a força do teatro em diálogo com o audiovisual. Não se trata de registrar a cena, mas de recriá-la por outros meios, fazendo com que projeções, iluminação, trilha sonora e atuação atuem como vozes autônomas, organizadas em partitura visual e sonora. O que nos interessa é produzir um espetáculo de êxtase, buscando a exacerbação plástica da cena e a intensificação de seu potencial de significados, algo que os recursos multimidiáticos tornam possível. As imagens projetadas oferecem uma multiplicidade de pontos de vista, rompendo com o plano único da plateia e criando uma visão caleidoscópica, sensorial e perceptiva, na qual o ator também se replica na tela. O olhar da câmera aproxima, recorta e revela o invisível, permitindo o uso do close-up como ampliação da emoção e do campo expressivo do intérprete. A escala da projeção modifica a experiência emocional, pois o rosto ampliado pode gerar empatia, desconforto ou fascínio, conforme o contexto da cena. Em palco, o ator dialoga com presenças virtuais, sombras e memórias. O espetáculo se move entre o real e o onírico. Para mim, o teatro não é forma estática, mas energia em mutação. Sobrevive porque se transforma. FUNDO-INFERNO integra esse impulso de metamorfose, encontro entre o humano e o tecnológico, a razão e o delírio. É uma liturgia contemporânea em que a arte se reinventa pela técnica e a técnica se humaniza pela arte.

Concepção cenográfica Gilberto Gouma · Animação 3D Ed Almeida

Do Texto à Cena

Fiz uma leitura dramatizada para calibrar a relação entre texto e cena. Durante os ensaios, percebi o que não funcionava cenicamente ou soava excessivo, e busquei dar mais fluência e ritmo. Esta leitura aconteceu no Teatro Prudential, no Rio de Janeiro, reunindo atores que corporificaram as personagens nesta primeira experiência cênica de FUNDO-INFERNO.

A leitura foi registrada em vídeo, o que permitiu, numa análise posterior, identificar os ajustes necessários. Surgiu assim uma versão mais dinâmica. Realizei cortes, fiz inserções e promovi fusões. A maior alteração foi a diminuição dos solilóquios e o aumento dos diálogos. Todavia, algumas falas longas eu mantive para dar liberdade ao encenador, junto ao elenco, de fazer os cortes que julgar necessários.

Sei que no processo de montagem, mudanças inevitavelmente acontecerão — seja pela percepção do próprio autor ao acompanhar ensaios, pelo olhar do encenador que imprime seu toque autoral, ou pela contribuição dos atores, que filtram as palavras e as transmutam em gesto, voz e presença. O teatro é, por natureza, uma criação coletiva e mutável, feita de interações vivas que renovam a obra a cada montagem.

Pôster de divulgação - Leitura Dramatizada Fundo-Inferno

Pôster de divulgação do evento

Fundo-Inferno — Leitura Dramatizada
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FUNDO-INFERNO

Leitura dramatizada

Local Teatro Prudential
Data 09 de outubro | Segunda às 19h
Evento Gratuito
Lotação presencial 359 lugares
Duração 90 minutos
Texto Gilberto Gouma
Direção da leitura Ernesto Piccolo
Direção musical Zeh Netto
Registro fotográfico Pedro Andrade

Elenco

(por ordem de entrada em cena)

Álvaro de Campos Gilberto Gouma
Fernando Pessoa Fábio Cordeiro
Mary Carolyna Aguiar
Freddie Matheus Polis
Tia Velha Fátima Regina
Mãe Analu Prestes
Walt Whitman Thelmo Fernandes
Alberto Caeiro Marcelo Aquino
Mário de Sá-Carneiro Mário Borges
Almada Negreiros Lucas da Purificação

A Peça que Faltava

FUNDO-INFERNO é uma criação inédita que transforma a poesia em teatro vivo. Gilberto Gouma dá corpo e voz a Álvaro de Campos, o mais visceral dos heterônimos de Fernando Pessoa e constrói uma peça multimídia em que palavra e imagem se fundem numa experiência sensorial e poética. O texto já traz uma proposta de mise-en-scène embutida, e Gilberto assume o duplo papel de dramaturgo e de encenador.

A escrita cênica revela o drama interior do engenheiro sensacionista. Em cena, um único ator interpreta Álvaro de Campos, que dialoga com personagens virtuais projetadas, num forte embate. Álvaro abre o baú da memória, convoca amores, desafetos, ausências e delírios, e mergulha no fundo-inferno de si mesmo. O palco torna-se abismo e altar, onde a poesia ganha carne, voz e vertigem. O leitor/espectador imerge num território de sonho e confronto, em que realidade e imaginação se confundem.

Com intensa carga dramática e imagética, FUNDO-INFERNO perpassa entre literatura, teatro e cinema. Gouma burila as palavras, urde a carpintaria teatral e desenha o roteiro visual para criar um espetáculo impactante. Os versos se transformam em diálogos potentes, e as imagens transportam o leitor/espectador para dentro da psique de Álvaro/Pessoa. Mais do que uma peça tradicional, FUNDO-INFERNO propõe uma experiência imersiva e catártica, em que o público atravessa o desassossego e emerge transformado. É uma dramaturgia que se expande para além do texto, uma obra que rompe fronteiras. A "peça" que faltava à obra pessoana. Ousada, profunda e absolutamente singular.

Comentário

— Sabes, Gilberto, o próprio Pessoa dizia que era mais dramaturgo do que poeta. E foi isso que trabalhei na minha tese, que compreendeste tão bem. FUNDO-INFERNO mostra exatamente isso: o teatro que já estava dentro de Pessoa, à espera de quem o libertasse. Tu não o representas, dialogas com ele. Não és imitador, és cúmplice. Escreves com Pessoa, não sobre ele. Vejo-te como discípulo, e digo-o com orgulho. Segues o mesmo caminho que há muito defendo: o de compreender Pessoa como criador de várias personagens e ele próprio, uma delas. Um autor essencialmente teatral. Assim como eu já fiz, tu levas essa visão à cena. Foste muito corajoso em fazer FUNDO-INFERNO e em mostrá-lo a mim. Coragem ou loucura, mas com método, e disso gosto muito.