ÍMPAR é um livro que já se explica pelo título: uma obra singular, diferente, inesperada. São 31 contos, acompanhados de interpretação em áudio por excelentes atores, com trilha sonora composta especialmente para a obra. O texto de Gilberto Gouma é instigante, faz com que queiramos saber o final, que nunca é o que se supõe. Com carga dramática e pleno de imagens, nos transporta entre a literatura, o teatro e o cinema. O modo como burila as palavras, a carpintaria teatral, o roteiro imagético, faz com que enredos aparentemente simples transformem-se em tramas envolventes. O leitor ficará imerso nas sensações que estes contos e áudios estimulam. Momentos de mergulho e de voo, de embate e de doçura.
ÍMPAR, como o protagonista do conto que dá título ao livro, é "magnificamente inadequado" a estes tempos de pobreza verbal, de simplificações e de improvisos facilitadores. O texto de Gilberto Gouma, ao contrário, revela um narrador multifacetado, camaleônico, com seguro domínio da linguagem e grande poder de fabulação, magnificamente adequado para ir à contracorrente dos lugares-comuns que ocupam a cena literária. Como a personagem "Ananya", a vocação inegável de Gouma é "transgredir para ser livre".
ÍMPAR, como o próprio título sugere, é uma construção artística singular, inventiva, instigante – trata-se de um livro-móbile, artefato visual e musical, simulacro de caleidoscópio, uma narrativa rizomática que se espalha em imagens, sons, relatos, fabulações, processos. São grafias-de-vida, do autor e de suas máscaras, dos personagens e seus espectros, da existência banal e suas transgressões, atravessadas pelo encontro de linguagens distintas, mas convergentes em suas representações e provocações. São 31 contos que formam um mosaico de corpos em preto-e-branco, respirações aceleradas, olhares perdidos, fatalidade erótica, gestos soltos e pendurados no cenário do teatro da existência. Em ÍMPAR, Gilberto Gouma exercita a curiosa, trabalhosa, difícil e instigante opção por uma verdadeira escrita performática, com todos os seus procedimentos de composição e fisiologia. ÍMPAR é um livro-roteiro, tetralógico, encenável, operístico, trágico, enfim, humano, demasiado humano.
Espero que o leiam desta maneira vagarosa, saboreando a parcimónia da sua linguagem que, tenho a certeza, entusiasmaria mestre Machado de Assis. O mais espantoso é que essa economia de ingredientes não lhe tira o sabor, pelo contrário: a mão que os manipula é sábia no seu manuseio.
Da interpretação
Todos os intérpretes convidados para este projeto são pessoas por quem tenho estima e carinho. Busquei uma obra imersa em afeição. No tocante à interpretação, não quis a mera narração, mas o contar, o interpretar, dando à palavra incremento de intenções e de sentimentos. Estes atores conseguiram corporificar as personagens, dar verdade ao enredo, dar vida ao texto. Por vezes, como é comum acontecer com o texto ao ser transposto ao palco, eles — consciente ou inconscientemente — fizeram pequenas mudanças ou acréscimos, visando dar fluência e autenticidade ao desempenho. Algumas destas alterações foram incorporadas ao meu texto original, outras mantive apenas no áudio, por entender que existem diferenças entre literatura e teatro. Ressalto que a trilha sonora também agregou outros elementos que influenciam na percepção interpretativa que o leitor-ouvinte terá.
Da trilha sonora
Usamos texturas sonoras, efeitos, composições inéditas, peças conhecidas de domínio público. Com a entrada da dimensão "som e música", para além das interpretações dos atores, a obra ganhou asas e nos mostrou outras direções, possibilidades e percepções. E, para impulsionar esse voo, fomos presenteados com a magistral participação de um dos maiores nomes mundiais do piano: João Carlos Assis Brasil. Além disto, Gilberto Gouma compôs três canções, interpretadas por Adriana Lessa, Chiara Santoro e Leila Maria, o que enriqueceu a parte musical. Também colaborou o JAN, que compôs e cantou a música "Santos e Hienas", inspirada em um dos contos.
Sobre os áudios
Abaixo, um exemplo do que você encontrará no livro
Doi aqui, doutor! ou Dissecação de um abandono
Para ter uma melhor experiência, utilize fone de ouvidos.
Texto: Gilberto Gouma
Intérpretes: Adriana Lessa e Igor Cotrim
Trilha sonora: Zeh Netto
Para ouvir os áudios de todos os contos, adquira o livro.
Intérpretes
ADRIANA LESSA
Atriz, cantora, radialista e apresentadora.
Interpreta: "Libertas quae sera tamen" e "Doi aqui, doutor! ou Dissecação de um abandono"