Em 2015, ano do Centenário do Modernismo Português, a editora Thereza Rocque da Motta convidou-me para fazer o prefácio de uma edição com o poema TABACARIA, de Álvaro de Campos. Eu estava em fase de conclusão do meu doutoramento em Portugal, exatamente tendo este heterônimo de Fernando Pessoa como meu objeto de estudo.
Para além de escrever o texto solicitado, eu sugeri que fosse feito um CD com a interpretação do poema por um ator português. Deste modo, seria possível potencializar a força dramática de TABACARIA. Passei então a cuidar da produção artística. Convidei o ator José Henrique Neto, que conheci na minha estada por Lisboa. Para o fundo musical encontrei uma obra de António Fragoso (1897-1918), compositor contemporâneo de Pessoa e convidei o músico Raul Pinto para fazer o arranjo musical e a execução pianística.
É importante mencionar que esta questão da intrínseca relação da poesia com o teatro é o meu foco de pesquisa há muitos anos. Tanto assim, que o resultado na minha tese de doutorado que versa sobre o potencial dramatúrgico da poesia pessoana, foi a criação da peça multimídia FUNDO-INFERNO.
Para definir o autor de TABACARIA, o heterônimo Álvaro de Campos, poeta sensacionista, seriam necessários adjetivos contraditórios: indisciplinado, arrebatado, polêmico, libertário, melancólico, amargurado, depressivo, angustiado e insatisfeito. Álvaro oscila entre sentir-se um gênio predestinado e um parvo humilhado. Ele é uma antítese em si.
Na vida real de Fernando Pessoa, seu criador, Álvaro se apossava do poeta-médium, apresentando-se como sendo o próprio Álvaro de Campos. Álvaro também interferia na vida de Pessoa, como ao exigir que Ophélia, namorada de Pessoa, se separasse do poeta. Ophélia não gostava de Álvaro e não o queria presente em seu casamento. Pessoa descrevia sua disposição heteronímca como autopsicografia, dando voz a outros de si mesmo.
O sentimento de Álvaro de Campos é extremamente contemporâneo: é a angústia diante da inutilidade em ser protagonista num mundo-palco conduzido por criaturas insípidas. Mesmo quando tenta representar, acaba por vestir a fantasia errada ou por não saber a hora certa de tirar ou repor a máscara, como se fosse o único a ser autêntico num contexto de farsa. Tal inadequação torna-o isolado do humano, exilado por sua imparidade.
Essa atitude está em sintonia com o Modernismo Português, que emergiu com a Revista Orpheu em 1915. Esta publicação de vanguarda provocou furor, sendo classificada como literatura de manicômio. Fernando Pessoa foi o principal expoente da Geração D'Orpheu, mas o verdadeiro modernista foi seu heterônimo Álvaro de Campos. A Literatura se desprende dos velhos cânones, gerando desconforto pela multiplicidade na concepção da poesia e pela incongruência em sua interpretação.
Na criação de TABACARIA, a expressão de Campos é mais contida, adquirindo um tom de sombria desilusão. Suas obras assumem uma cadência propositalmente arrastada, com temática saudosista, em oposição às vastas Odes da sua fase sensacionista. Álvaro de Campos despenca num derrotismo, certo de que só sobrou a solidão, refugiando-se nas reminiscências infantis.
Cabe aqui a extrapolação do conceito de flâneur para a atitude de Campos e sua transformação — da dimensão exterior para a imersão no claustro. Walter Benjamin, ao discorrer sobre Baudelaire, foca no flâneur, que se deleita em analisar as personagens citadinas. A cidade é o autêntico chão sagrado da flâneurie. Álvaro de Campos também tem esse aspecto de flâneur ao circular pelos labirintos de Lisboa. Ele se deslumbra e se sente isolado e solitário, imerso na multidão. Teresa Rita Lopes fala que Álvaro de Campos vagueava pelas ruas lisboetas e, a partir da fase do engenheiro aposentado, deambula interiormente. A flâneurie interna de Campos, em TABACARIA, o torna distinto de Baudelaire, mas ainda assim, um arrebatado espectador do estranhamento no que é familiar.
TABACARIA é o poema mais difundido de Álvaro de Campos. Nele, o poeta vagueia entre a subjetividade de seu pensamento abissal e o vislumbre de um cosmos libertador. Álvaro denota seu tormento com a realidade inóspita, aspirando a libertar-se deste cotidiano através da libertação onírica: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada e tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Oscilando entre niilismo e fé, Álvaro sente-se impotente para concretizar sua grandeza. Ele se encerra em sua mansarda, apreendendo o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, que consiste no aniquilamento da vida e no desconhecimento do destino. Sua agudeza sobre a morte e o destino advém da capacidade de radiografar as almas. A crueza com que constata a falta de perspectivas revela-se pela lucidez excessiva, frustração, abulia, autoceticismo e opressão anímica.
Este sentimento de derrota se deve ao fato de que todas as potencialidades e suas possíveis realizações ocorrem tão-somente no plano ideário, sem efetivação. E, como leva uma vida de sedentarismo existencial, sente-se cansado, pois não tem musculatura emocional para que o sonho tenha concretude. Porém, em Campos nada é estanque e a antítese comparece para mostrar, que, em meio à desesperança, permanece a faísca da predestinação: E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
"Exorto-os para uma leitura entregue, sem reservas, apaixonada. Poesia não é só palavra: é mergulho e voo. Fica o convite para esta aventura.
"
Na direção interpretativa do ator, foquei em equilibrar clareza e teatralidade para intensificar o impacto dramático do poema pessoano. Solicitei uma pronúncia mais articulada para que o texto fosse facilmente compreendido pelo público brasileiro. No entanto, a preservação da musicalidade lusitana foi essencial para manter a conexão com o universo original de Fernando Pessoa, criando uma experiência que respeitasse a riqueza da língua e o estilo do poeta.
Baseado na dualidade de Álvaro de Campos, orientei o ator, José Henrique Neto, a destacar a antítese presente no personagem: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Ao explorar a oposição entre a sensação de nulidade e a plenitude dos sonhos, o ator foi capaz de transmitir as complexas emoções de Álvaro de Campos. Deste modo, a interpretação evocou a atmosfera de introspecção, dubiedade e tensão presente em Tabacaria, com profundidade e nuances.
Para ter uma melhor experiência, utilize fone de ouvidos.
Produção e Direção Artística: Gilberto Gouma
Interpretação Poética: José Henrique Neto (1955-2023)
Composição Musical: António Fragoso (1897-1918)
Arranjo e Piano: Raul Pinto
Mixagem e Masterização: Zeh Netto